O que aconteceu foi o seguinte: meu pai teve que fazer uma segunda cirurgia, incluindo remédios, repouso, recuperação e todas as fases do luto pelo fêmur quebrado. A mãe, passou num concurso público, e não pôde mais ficar com ele e auxiliá-lo. Meu irmão não sabe cozinhar, não faz nem gelatina e também não parece disposto a aprender. Eis que fui escalada para tirar umas semanas (ou meses) do trabalho e ficar em casa, com meu pai.De início pareceu fácil, até porque ele adquiriu uma autonomia legal pra fazer uma porrada de coisas que até agora eu não consigo imaginar como uma pessoa consegue fazer usando muletas e sem poder encostar um pé no chão. Whatever, assim começou minha jornada em casa, como pseudo-dona de casa.
Adianto que nunca fui profunda conhecedora do drama doméstico... comecei a trabalhar bem cedo, mal parava em casa, então poucas vezes na vida lasquei meu esmalte lavando louça. Admito. Bem dizem as mães resmungonas que o serviço doméstico é a coisa mais ingrata que há no mundo. É mesmo.
Vamos aos fatos:
- não importa quantas pessoas estejam em casa, sempre, sempre, muitos copos estarão sujos em poucos minutos após você ter terminado de lavar a louça. Pessoas tem o incrível dom de usar todos os copos possíveis e imagináveis (do escorredor, do armário, até copo trincado neguinho pega só pra não lavar a louça);
- tirar restos de comida do prato é luxo. E claro, a encarregada da louça tem que cuidar de toda aquela coisa que sobrou no prato de tooodo mundo. Isso quando não tem uma visita folgada que resolve colocar o prato com os restos na pia! Adivinha? Entope! Porque ao contrário d

os filmes americanos, minha pia não tem triturador e eu não tenho um encanador gostosão pra chamar. Ah, o ralinho é outra coisa cruel, né? Sem comentários quanto a isso... gostaria de um triturador pra não ter que passar por isso;
- algumas pessoas pensam que, enquanto cozinham, tem uma câmera escondida transmitindo as imagens pra algum programa da tarde. Essas gostam de picar cada ingrediente e colocar num potinho, deixar tuuuudo semi pronto, picar 300 ingredientes e sujar 300 potinhos. Meu pai é um desses aí. Paciência.;
- cozinhar é para os fortes. Exige um quê de auto-estima inabalável e muita criatividade. Primeiro que, cedo ou tarde, sua família começa a esculachar sua comida, seja porque cansam, porque cada um preferia um prato, porque família não é família sem uma sapateada no seu ego e pra isso dá-lhe auto-confiança par permanecer firme e forte nas tarefas do lar. Segundo porque cada dia você precisa cozinhar uma coisa e chega uma hora que não há
cybercook que te salve; você deve usar sua criatividade para misturar coisas, fazer gororobas apetitosas (ou pelo menos comestíveis);
- estender roupas dá uma puta dor nas costas. O.k., é exercício, você se alonga, blá blá blá, mas ô atividade chata, viu. Depois, quando começa a gotejar, só dá a louca descabelada correndo e arrancando tudo dos varais. Detalhe: uma dona de casa insana é facilmente identificável pelos pregadores que ela coloca na barra da blusa que está usando (e às vezes esquece de tirar heheheheheh);
- produtos para microondas nunca falam a verdade. Se a embalagem diz "8 minutos", aposte que ou serão 6 ou 10, e você só descobre comendo lasanha queimada ou um hot pocket com um iceberg no centro do hamburguer;
- o óleo sempre espirra quando algo molhado é colocado dentro da frigideira. Aprendi isso da pior forma possível;
- alguma coisa esquecida sempre é lembrada quando a compra já passou pelo caixa do supermercado;
- animais de estimação tendem a fazer mais sujeira do que a família toda. Ainda assim, algumas vezes preferimos os animais de estimação.
Besos!